• Gato Preto

Crítica | O Amigo Imaginário


Durante a oficina de crítica do XI Cinefest Gato Preto, os alunos escreveram textos sobre os filmes do festival. Vamos, aos poucos, postar todos eles aqui no site. No de hoje, Polyana Zappa escreve sobre o curta "Cordilheira de Amora II"

O Amigo Imaginário

Polyana Zappa

A indígena Carine Martines, de 9 anos, da etnia Guarani kaiowá, mora na fronteira do Brasil com o Paraguai e projeta em seu quintal uma realidade idealizada com embalagens e sucatas transformadas em objetos do cotidiano da classe média brasileira.

De suas raízes percebemos somente o sotaque, que a mantém em sua etnia. Fora isto, temos uma menina articulada e que projeta situações do dia-a-dia em meio às folhagens, lajotas e restos de diversos materiais encontrados no entorno. De uma caixa de sabão em pó à televisão, do fragmento de isopor ao monitor de um pc, do catálogo de loja de departamento ao clássico da literatura infantil; num jogo imagético, a realidade que visivelmente não pertence a menina vai ganhando contornos.

Um amigo imaginário, segundo Carine, é coautor do universo criado em seu quintal, onde a menina elabora significados e se expressa por meio dele, trazendo modelo de uma estrutura familiar que encontramos nas sociedades industrializadas.

Segundo Gilles Lipovestsky, vivemos o Capitalismo Artista que favoreceu a cultura democrática, onde o individuo estético ou como o autor define, transestético, estão imersos num universo “transbordante de imagens, de música, filmes, revistas, vitrines, exposições”. O transestético é o individuo reflexivo e exigente, mas “um drogado do consumo, obcecado pelo descartável, pela celebridade, pelos divertimentos fáceis”. A indígena não escapa desta realidade, pois como o filósofo francês afirma, o capitalismo artista atinge todas as camadas sociais.

O curta abre diversas possibilidades de diálogo, o imaginário infanto-juvenil, a desenvoltura da menina diante das câmeras, a perda da identidade de sua etnia, entre outros, mas pontua o espírito lúdico da personagem que tem a livre expressão.

O que chama atenção é o fato de que, mesmo inserida num contexto Capitalista Artista, a diretora apresenta uma menina que não deixa de ser uma criança que mergulha no seu mundo de faz-de-conta. Criança é criança, indígena, romena, asiática ou europeia.

E Carine em sua linguagem espontânea nos surpreende com a possibilidade de até produzir um filme, “Cordilheira de Amora”, com roteiro, locação e quem sabe até enquadramentos de câmeras. E como em toda sociedade do consumo, a possibilidade de ter a Cordilheira de amora 2.

Filme: Cordilheira de Amora II

Direção: Jamile Fortunato


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