Crítica | Dá licença de contar porque me encantei


Da licença de contar porque me encantei

Joel B. Ramos.

A “paulicéia desvairada” e não ainda tão caótica dos anos 50 é o pano de fundo da emocionante cinebiografia de um dos maiores e mais queridos compositores da música popular brasileira: Adoniran Barbosa!

Um artista que soube retratar a cidade de São Paulo com seu sotaque muito peculiar: a gostosa junção do jeito caipira e italianado do bairro onde viveu por quase toda sua vida... A mistura das cores e das diversas etnias que fizeram de Sampa uma cidade das oportunidades para quem teve a coragem ou oportunidade de vir para cá e tentar a vida. Adoniran soube transformar em música a dura realidade da metrópole que ia surgindo.

Um misto de documentário e muita liberdade poética são a base deste curta, onde drama e comédia convivem com a maior naturalidade. Muitos diálogos são das letras dos clássicos: “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Samba do Arnesto”. Assim o filme ganha o espectador, também, pelos ouvidos. O visual é outro atrativo, com uma bela reconstituição de época e rica em detalhes; belos figurinos, um colorido primoroso.

Tudo em um roteiro (do jovem e competente diretor Pedro Serrano) inspirado e bem estruturado que de forma agradável põe na tela os dramas, as mazelas, as alegrias, as paixões, amizades, solidariedade e as pitadas certas de malícia e sensualidade, afinal de contas, o Adoniran fazia sambas: eles dão conta de tudo! Uma cena que merece destaque é a da demolição da casa “onde cada táuba que caia...” vai tocar e muito o coração, com direito à lágrima furtiva... Mas não é um dramalhão, não mesmo, uma gostosa viagem no tempo, onde o bom humor é a base. Uma página importante da boa música brasileira é resgatada e mostrada às novas gerações.

E o elenco? O ator Paulo Miklos compôs um Adoniran perfeito (o sotaque é demais!) e os outros artistas não fogem à regra: eles dão o tom exato para seus personagens, e o mais interessante é saber que cada um foi tirado de uma música; assim, vê-los em “carne e osso” é uma grande satisfação.

Se a ideia é contar um pedaço da vida de Adoniran, a música tem papel fundamental e a trilha sonora é essencial, portanto, o filme presenteia a plateia com música de muita qualidade. Não estranhe se sair da sala de exibição assobiando ou mesmo cantarolando algumas das formidáveis músicas do saudoso compositor... Elas ficarão em seus ouvidos/memória por muito tempo.

Confesso que o meu encantamento pelo “Da Licença” começou pelo cartaz; ele conseguiu me atrair de forma inconteste e valeu a pena ver, recomendo mesmo. Imperdível!

Filme: Dá licença de contar

Direção: Pedro Serrano

Crítica criada na Oficina de Produção de Crítica Cinematográfica do XI Cinefest Gato Preto


Posts principais
Mais recentes
Arquivo
Siga o Gato
  • Facebook Basic Square
  • Instagram Social Icon